quarta-feira, 21 de julho de 2010

CONCEPÇÕES CURRICULARES NUMA PERSPECTIVA DE CONCRETIZAÇÃO DAS INTENÇÕES EDUCACIONAIS

Transitar pelas Concepções Curriculares pode ter sido bastante desafiador, até porque currículo em sua origem se refere à carreira, à pista de corrida. O Curso permitiu uma reflexão acerca dos saberes e fazeres na escola. Teve-se a oportunidade de construir e re-construir noções de currículo, com as principais teorias curriculares e seus pensadores.

Nos fóruns de discussão, bem como nas avaliações anteriores, tivemos diferentes abordagens de currículo, como discussões sobre as atuais perspectivas. Procurou-se ampliar a reflexão crítica acerca do currículo, buscando o desenvolvimento de habilidades e atitudes comprometidas com uma prática inovadora e transformadora, voltada à qualidade e à excelência.

Segundo Sacristán (1998), “Currículo é uma construção social”, ou seja, trata-se de algo feito pelas pessoas em um determinado momento histórico. Representa, portanto uma trajetória, um percurso, um caminho e que é construído socialmente. Mas o que se vê nas escolas sobre esse assunto, principalmente entre professores, é que muitos consideram que este é um assunto meramente administrativo, gerando a compreensão equivocada de que currículo significa grade curricular.

A fim de, desconstruir esse conceito precisamos compreender o currículo a partir de uma concepção dinâmica, sendo pensado de forma conjunta com a sociedade, desconstruindo determinadas “verdades” que se encontram cristalizada nas instituições educativas. Pode-se afirmar que, currículo é o fundamento de qualquer sistema de ensino. Constituído de todo conhecimento social selecionado e organizado afim de que, seja concretizado naquilo que é vivido, percebido, entendido por quem se educa.

Sendo assim, não é um instrumento passivo, mas um processo ativo, que pode servir para legitimar as ideologias e os sistemas sociais e econômicos tão estreitamente ligados à escola. Na educação não existem práticas neutras e o currículo consequentemente não possui neutralidade. Portanto, encontra-se apoiado em um sistema de crenças e valores e têm direções para determinados resultados, tendo em vista o contexto histórico no qual se encontram inseridos. Desta forma, o conhecimento em que se constitui o currículo está diretamente vinculado ao que somos e ao que nos tornamos.

Desta maneira, segundo Silva (2000), “é muito difícil pensar o currículo distante de uma relação de poder”. Selecionar e privilegiar um determinado tipo de conhecimento é uma operação de poder, e é justamente esta questão que separa uma concepção tradicional de currículo de uma teoria crítica que, possibilita compreender o que o currículo faz, ao invés de se preocupar como se faz um currículo. Segundo a linha das teorias críticas, “a escola contribui para a reprodução da sociedade capitalista ao transmitir, através de matérias escolares, as crenças que nos fazem ver os arranjos sociais existentes como bons e desejáveis” (Silva, 2000: p.32). Giroux e Freire também fazem uma reflexão considerando a escola o aparelho ideológico que maior reprodução exerce, não pela função de ensinar, mas pelo contexto através do qual desempenha essa função. Admite-se a dependência da educação em relação à sociedade, concluindo que a educação e a escola têm uma função reprodutiva, na medida em que se reproduzem a sociedade de classes e o modo de produção capitalista.

E dessa forma, através da reprodução da cultura dominante é que a reprodução mais ampla da sociedade fica garantida. Giroux, afirma que no novo capitalismo corporativo ocorre um enfraquecimento do capital social e cultural da democracia, limitando os processos de educação democrática, das diferentes práticas sociais. Através da análise de três mitos Giroux, desenvolve uma análise bem sucedida para entendermos os efeitos das políticas neoliberais, como no primeiro mito apresentado: “O Fim da História”, em que supõe que a democracia liberal conseguiu sua vitória e que as ideologias dominantes são os valores da nova ordem estabelecida pela globalização. Com o segundo mito; “A inocência da Infância”, Giroux, baseia-se na inocência da infância, e que justamente por se ter esse pensamento ela passa a ser um agente passivo, sendo negado o direito e a capacidade de ação ou educar-se para a liberdade de “ser”e não do “ter”, através de um processo de desenvolvimento e autonomia. Já o terceiro mito “O ensino Desinteressado”, permite uma reflexão acerca das práticas e do processo ensino-aprendizagem com foco nas intenções pedagógicas.

Neste terceiro mito, Questiona-se a concepção de submissão e os entraves que os professores enfrentam na atualidade. E aqui, entra a questão do Curso de Mestrado, que possibilita sermos gestores de nosso próprio conhecimento, mediando e informando o caminho que devemos seguir. E desta forma, precisamos repensar a escola como espaço para todos, comprometida ativamente com a produção de novas formas de democracia e sociedade. Uma escola que reflete as vivências de seus diversos atores e a própria diversidade social. Uma escola que em seu currículo assume na prática o processo da inclusão social, comprometida com a reestruturação social, de formação, de ética, de produção e reconstrução do saber, estabelecendo relações, criando vínculos, em que educar é formar-se. Em que educar é viver junto e aprender a ser. Em que conhecer não é acumular conhecimento, informações ou dados, mas a capacidade, a habilidade e a competência em estabelecermos relações.

Ao finalizar, cito Vasconcelos que em seu livro; “Currículo: A Atividade Humana Como Princípio Educativo”, afirma que, a mudança da prática curricular se dá pela ação humana. Nessa perspectiva, possibilita-se um novo olhar sobre as entranhas da escola, sobre aquilo que lhe é nuclear: A organização do processo de ensino-aprendizagem, com o objetivo de combater a alienação na escola, o que na prática se procura combater dentro do próprio currículo alienado, sem se questionar a sua estrutura. Sendo assim, o ser humano se faz por sua atividade, para o bem ou para o mal, não existindo um caminho neutro, com possibilidades de humanização, sempre presente numa perspectiva emancipatória, isto é, numa atividade que o faz ser humano, uma atividade constituinte da sua humanidade.

Nessa constituição de atividade humana, pode-se também afirmar que existem muitos currículos em ação em nossas escolas. Assim, tomar como referência do currículo essa diversidade de interações, saberes e fazeres realizados nas redes tecidas no cotidiano escolar implica como permanente devir, como permanente produção, que se diferencia e que se realiza a partir das próprias redes compartilhadas pelos sujeitos. Desta forma, não existe um único currículo na escola, mas inúmeros currículos, redes, metamorfoseados, complexos e quase impossíveis de serem apresentados e aprendidos numa concepção de documento prescrito, e sim, pensar o currículo de uma escola, pensando e pressupondo a vivência de seu cotidiano, que inclui toda uma dinâmica das redes e relações estabelecidas. Buscando dessa forma um questionamento, desconfiança, transformação, de conscientização que nos remete a mudanças estruturais e fundamentais entre organização do conhecimento e a distribuição do poder.

Professor : João Bet - Diretor de Escola




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BERTICELLI, Ireno Antonio. Currículo: Tendências e Filosofia. In: COSTA, Marisa Vorraber (org.) O Currículo nos limiares do contemporâneo. Rio de Janeiro, 3a edição. DP & A; 2001.
COPPETE, Maria Conceição. Currículo. Florianópolis: UDESC/CEAD, 2003.
GIROUX, Henry. Stolen Innocence: Jovens, multinacionais e política cultural. Morata. Pablo Manzano, tradutor. Madrid: 2003.
http://edrev.asu.edu/reviews/revs119. Acesso em 25/05/2010.
PARO Vitor Henrique. A Escola Pública que Queremos. Palestra proferida na Conferência Estadual de Educação: “Propostas dos Trabalhos da Educação para o Próximo Governo”, realizada em Curitiba, PR, de 4 a 5/08/2006, promovida pela APP, Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Paraná. http://www.espacoacademico.com.br/042/42pc_critica.htm
SACRISTAN, GIMENO. Um só conceito ou diversas concepções de currículo ¿ In. GOMEZ, A. I. PEREZ E SACRISTAN, GIMENO. Compreender e transformar o ensino. Porto Alegre. 4a edição. Artes Médicas; 1998.
SILVA, Tomas Tadeu da. (org.) Currículo, cultura e sociedade. São Paulo. 2a edição. Cortez;1995.
SILVA, Tomas Tadeu da. Documentos de identidade. Uma introdução às teorias do Currículo. Belo Horizonte. 2a edição. Autêntica; 2000.
TELLES, Antônio Savier. Fábula da Criação da Escola e dos Currículos. In: Revista Mundo Jovem; pag. 21; outubro; 1989.
VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Currículo: a atividade humana como principio educativo. São Paulo: Libertad, 2009. –(Coleção Cadernos Pedagógicos do Libertad; v.7).

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